DA MINHA JANELA

Lendo jornais, vendo televisão, acompanhado o dia a dia da mídia, em determinado momento nos sentimos exaustos, cansados do noticiário que não muda. São crimes de toda a ordem. Homicídios, seqüestros, roubos, assaltos, uma verdadeira guerra.
Os artigos de jornais são massacrantes, falam da política cambial, das exportações, da dívida interna e externa. Os economistas lançam regras e mais regras. Os entendidos em segurança são consultados todos os dias. Os inquéritos e investigações consomem edições e mais edições de jornais, e a televisão procura se esmerar ao máximo na exposição dos crimes mais chocantes. A propaganda de produtos farmacêuticos chegou ao cúmulo do descaramento.
Carecas receitando remédios contra a queda de cabelos. Profissionais com mais de cem quilos receitando remédios para o emagrecimento. O homem comum, o anônimo que passa muitas horas esperando notícias do andamento do mundo, paga um preço muito alto. Antes do noticiário, ele é obrigado a suportar a carga irritante dos comerciais.
Sendo uma das vítimas desse quadro de horrores, insisto sempre em procurar indicativos que me informem que nem tudo está perdido. Que a solidariedade humana ainda existe. Que o bem e a caridade ainda não morreram no coração humano.
Da janela do meu apartamento, defronte à Bernardino de Campos com Floriano Peixoto, ali quando Prefeito reconstruí aquela ponte enorme, com o dobro de sua metragem primitiva. É um local de grande movimento. Existe uma guarita que serve aos motoristas de praça e também a pedestres.
Um fato vinha chamando minha atenção. O que estarão fazendo aquelas pessoas, olhando para debaixo da ponte. Umas com pequenas latas e outras com embrulhos nas mãos. Cheguei a pensar que se tratava de algum despacho, pois ali se forma uma encruzilhada. Procurei fixar bem quais eram as pessoas. Um homem com mais de 50 anos, uma senhora e uma moça. Os três, em determinadas horas, separadamente, cumpriam o ritual. Chegavam, abriam os pacotes e latas, inclinavam-se para olhar debaixo da ponte e ali depositavam o que traziam. Notei também, que os motoristas de praça ajudavam na operação.
Um dia, não suportando mais a curiosidade, resolvi desvendar o mistério. Quando me aproximei da ponte e dei uma olhada para baixo, um gato bonito, rajado, gordo, veio me dar as boas vindas. Que agradável surpresa. Eu acho que conheço esse gato.
Constatei nesse episódio, que nem tudo está perdido. Aquelas três criaturas, sem que ninguém lhes peça, sem que ninguém lhes pague alguma coisa, preocupam-se em alimentar um gato que vive debaixo da ponte. É um gesto anônimo que não visa nenhuma recompensa. Seguem apenas o impulso do coração, da solidariedade humana que ainda não morreu e jamais morrerá, como sempre me repete o Dr. Naylor Tavares.

by: Oswaldo Justo
(29.01.2002)

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