CUSCUZ E XAXADO
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| Todo mundo conhece a Etty Fraser,
não apenas por seu trabalho como atriz, mas também por ser campeã em ajudar
artístas necessitados -nos tempos que correm, os aidéticos têm nela um grande
anjo da guarda. O que pouca gente se lembra é que a Etty já entrou numas
de entortar patuá. Estávamos numa roda, noite dessas no Gigeto, contando histórias, falando de gente do teatro e o assunto Etty piou. Eu me recordei de um caso que aconteceu na extinta TV Tupi, o programa do Airton e da Lolita Rodrigues, o "Almoço com as Estrelas". Era aos sábados, ao vivo, e embarcava em campeonato de coisas estranhas, coisa que esteve na moda desde a fundação da televisão. Pois a Etty surgiu lá uma vez como jurada de um campeonato de cuscuz, uma presepada até então inimaginável... Convidada, a Etty achou que era uma boa chance de falar da peça em que ela estava em cartaz e embarcou numa canoa furada sem vacilar. É bem verdade que ela não estava sozinha na parada; tinha a Maria Della Costa e o Carlos Galhardo no mesmo júri, na mesma treta, mas o caso é que ela estava lá para julgar cuscuz. E teve inicio o perereco. Foi a própria Etty quem me contou... Faço minhas as palavras dela, que, apesar das aparências em contrário, apela pra gíria na intimidade; como ela só faz papel comportado na televisão, de mãe e tia, só os mais chegados conhecem seu lado mais charmoso e engraçado. Quando o Airton, com a simpatia que sempre lhe foi peculiar, chamou pro palco as concorrentes do concurso de cuscuz, a Etty se assombrou; subiu uma leva de umas vinte senhoras de várias idades, tipos e cores, com sus cuscuz. Havia cuscuz de todo naipe: seco, molhado, de sardinha, de camarão e os cambaus. Depois de desfilarem seus cuscuz em frente às câmeras de tevê, as senhoras partiram pra batalha. O julgamento consistia num teste de paladar: cada um dos jurados comia um pedacinho de cada cuscuz e escolhia o melhor. Devido à quantidade de participantes, bastava que a Etty, a Maria Della Costa e o Carlos Galhardo provassem um naquinho à toa de cada prato pra tomarem um verdadeiro porre de cuscuz. Porém (e sempre tem um porém), as distintas senhoras concorrentes, na ânsia de agradar, atocharam pra cima deles cada fatia de cuscuz que vou te contar! Uma só já dava indigestão. E pra que ninguém saísse esculachando o concurso, os honestos membros do júri decidiram não deixar nenhuma sobra. Foi de lascar: depois do terceiro pedaço de cuscuz, nenhum dos três artistas da comissão julgadora se lembrava mais do gosto do primeiro; no décimo naco de cuscuz eles estavam transbordando pelas orelhas; no final da cuscuzada, estavam todos entupidos. E o pior é que não sabiam qual o melhor cuscuz. Foi aí que a Maria sugeriu que decidissem quem seria o vencedor por sorteio; todos apoiaram e o Airton topou. Foi sob grande suspense que o animador fez a sorte decidir quem ganharia o prêmio e a vencedora foi muito aplaudida, donde se conclui que foi um sucesso. Desgraça foi o que sobrou pra Etty. Para aproveitar o embalo, o Airton anunciou que o Carlos Galhardo iria cantar, pra gáudio dos ouvidos e para a sensibilidade dos corações. O grande intérprete pediu tempo. Explicou que, se abrisse a boca, ia espirrar cuscuz no auditório. O Airton compreendeu e, pra quebrar o galho, apresentou um cantor de xaxado... que, sem a mínima cerimônia, esparramou que, representando o júri do concurso de cuscuz, a Etty ia dançar xaxado. A simpática gordinha, que não sabe dizer não, puxou seu espirito esportivo, que estava sufocado embaixo de um monte de cuscuz, e mandou ver. Quem tem arte sempre abafa e a Etty abafou: dançou xaxado pela primeira vez como se fosse num forró badalado. Plínio Marcos
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