Wanderlei Cardoso ou Fernando Luxemburgo?
Por Carlos Chagas

     De um lado, curvamo-nos aos interesses da Nike; de outro, submetemo-nos ao FMI e às suas imposições.
     Os dois foram saudados como o melhor de que o Brasil dispunha. A posse de um e a convocação do outro levaram a sociedade a um dos maiores climas de euforia registrados entre nós. Havíamos encontrado, finalmente, o caminho do sucesso e da competência. Escalariam os melhores, para o ministério e para a Seleção. Adotariam as táticas mais ofensivas e os modelos mais acordes com nossas necessidades. Conquistariam, pelo passado de cada um, o desenvolvimento e a justiça social, assim como os campeonatos e as copas.
     Hoje, é o que se vê. O país empobreceu, o desemprego multiplicou-se, o número de excluídos passou dos 40 milhões, ao tempo em que se alienou patrimônio público estratégico e foram escancaradas as portas de nossa economia à especulação financeira predatória. No reverso da medalha, de queda em queda, acabamos levando uma surra dos paraguaios. Tanto no ministério quanto na Seleção, uma confusão geral. O time jamais se apresentou com os mesmos onze jogadores em duas partidas que fossem. E a equipe de auxiliares do presidente, verifica-se agora, até vendida estava, chutando para trás, como no caso de Eduardo Jorge, Mendonça de Barros, Persio Arida, André Lara Resende, Chico Lopes, Teresa Grossi e tantos outros.
     De um lado, curvamo-nos aos interesses da Nike, que escala o time e exige a presença de craques que jogam no estrangeiro e são seus contratados. De outro, submetemo-nos ao FMI e às suas imposições, passando até a justificar a submissão e a vassalagem.
     Nos estádios, a torcida vaia e chega a cantar ''olé'' todas as vezes que o time adversário nos envolve. O técnico recebe permanentes adjetivos pejorativos desde o momento que sai do vestiário. No país, caem a níveis jamais alcançados na história os índices de popularidade do presidente.
Ambos, porém, não dão o braço a torcer, cabeças duras que são. Um fala que a economia vai melhorar, ou até já melhorou, sem considerar os índices sociais. O outro proclama não ter intenção de mudar o time, esperando que na próxima partida tudo venha a ser diferente.
     Convenhamos, tanto o selecionado quanto o governo vão de mal a pior. Seria injustiça jogar toda a responsabilidade em seus comandantes, mas a culpa começa com eles, pelas táticas erradas deste ou pelo pérfido modelo adotado por aquele. O pior é que, se do lado de fora percebemos, não dá para entender como lá de dentro não percebem.
      Arrisca-se o Brasil a passar de país emergente a país subdesenvolvido, tamanho o número de cidadãos expostos à miséria, sem ânimo nem esperança, ainda que pequena elite possa apresentar resultados acima da média. No reverso da medalha, estamos a um passo da desclassificação para a próxima Copa do Mundo, ou, na melhor das hipóteses, iremos disputar a repescagem com algum mau classificado da Oceania. Há craques em profusão capazes de virar o jogo, um ou dois inclusive sendo escalados, como há ministros de grande competência e espírito público, mas é a tática do técnico e o modelo adotado pelo presidente que estragam tudo. O resultado mostra cidadãos e torcedores completamente despojados de orgulho e de confiança.
     Fazer o quê? Aguardar os embates previstos não só para a próxima semana, mas até 2002, tanto no futebol quanto no governo, equivale a correr sério risco. Poderemos chegar àquele ano dissolvidos como nação que não mais seremos e destroçados como concorrentes a uma copa que não disputaremos.
     O diabo nessas duas novelas de horror é o papel exercido pela mídia, ou, ao menos, pela imensa maioria dela. Nas telinhas, nos rádios e nos jornais, assistimos, ouvimos e lemos exortações piegas e patrioticamente falsas, interessadas em encobrir os dois vexames. Nos mesmos veículos, indignamo-nos menos com a passividade, mais com o sabujismo de quantos exaltam a mortalha globalizante ou a camisa amarela, não obstante a realidade à vista de todos.
     É preciso mudar, e rápido, se pretendemos continuar na corrida pelo desenvolvimento e a justiça social, tanto quanto buscando a classificação para a Copa do Mundo. Mecanismos existem, lá e cá. A premissa, porém, seria o reconhecimento, por parte de Wanderlei e de Fernando, que se encontram no caminho errado. É aqui que a situação enrola e nos leva à mais profunda depressão. Não querem mudar, seja por vaidade, seja por incompetência. Julgam-se donos das verdades absolutas e dividem o país e a torcida entre os que estão e os que não estão com eles. Breve, estarão sozinhos.

OBS: Este artigo foi escrito antes das Olimpíadas de Sydney 2000.

by: Carlos Chagas (jornalista)
Colaboração de: {Kakinho}

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