Continuamos Perdidos...

Assim como falham as palavras
quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos
quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas pensada,
assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença....

(Alberto Caiero)
 

     Esta nova montagem de "Dois Perdidos Numa Noite Suja", do dramaturgo santista Plínio Marcos, retrata com clareza a realidade que teima em permanecer atual, muito embora já se tenham passado quase quarenta anos de sua autoria. Recentemente a imprensa santista destacou a vida miserável dos moradores de cortiços da cidade de Santos. Destacou também as promessas de políticos que teimam em usar e abusar desses desvalidos, acenando com propostas de novas moradias. Nada que não seja propaganda enganosa.
     Nada mudou e como diz o poeta, "assim tudo que existe, simplesmente existe ." O que impressiona na temática de Plínio, é a sua crescente atualidade. Com o advento da globalização da economia, e a entrega total do nosso patrimônio às multinacionais alienígenas, acentuou-se o desemprego, a miséria e a fome, enquanto os donos dessas multinacionais globalizaram mais riquezas para seus cofres.
     Ficou mais evidente o desencontro dos personagens Paco e Tonho, vítimas do desgoverno e da falta de vergonha daqueles que, com a maior cara de pau, tentam explicar as fraudes da Sudene, da Sudam e de outros organismos governamentais que servem como ralos para o escoamento de verbas que deveriam ser destinadas a projetos de atendimento ao bem comum da sociedade.
     Nos dias de hoje vale tanto ser letrado como ser analfabeto. Não há empregos nem salários decentes, e o mercado está em total retração. E como Paco e Tonho, nossos filhos são obrigados a andar de uma cidade para outra na busca de algum trabalho, com a incerteza, a desesperança e o desencontro a rondar seus caminhos, e como única certeza, a desestruturação familiar. Seus destinos ? Um cortiço ou um viaduto para se abrigarem. As caixarias de qualquer mercado municipal para serem transportadas no lombo, como burros, na forma de emprego efêmero.
     A velha temática do capital e do trabalho, dos desdobramentos que essa luta produz no homem, que vai se tornando mais frustrado, mais desalentado, mais violento e menos humano. Uma leitura da obra de Plínio Marcos passa necessariamente pela análise da sua proposta de humanização. Os mais incautos, conservadores e egoístas, apenas lêem os palavrões, como se fosse possível traçar um diálogo shakespereano entre dois excluídos.
     Com direção segura, Tanah Correa conduz com clareza, nitidez e eficiência, esta nova montagem de "Dois Perdidos.....". Percebe-se sua mão no trabalho de Alexandre Borges e José Moreira, perfeitos nas concepções de seus personagens. A presença de José Moreira, ator português de grande qualidade técnica, dá uma nova e agradável versão ao texto. A do imigrante que procura outra opção de trabalho em país de cultura diferente da sua. Está perfeitamente familiarizado com a temática e com a forma de ser do brasileiro excluído. A miséria, os cortiços, a fome, produtos esses da exploração do homem pelo homem, não são privilégios do Brasil. Estão presentes em todas as nações do mundo, com maior ou menor intensidade.
     A participação de Alexandre Borges atesta seu compromisso com o teatro político e social. Deixa de lado o conforto das telenovelas, abre mão de sua condição de namoradinho dos sonhos de todas as enamoradas, e parte para a continuidade de um trabalho sério, compromissado com a nossa realidade, voltado para um teatro que não se conforma com o estado de coisas que estamos vivendo. Como diria Brecht, "exatamente porque as coisas estão como estão, assim elas não podem continuar". E sonhar ainda não está proibido. Com este trabalho, Alexandre Borges demonstra sua técnica e seu amadurecimento como grande ator do teatro brasileiro.
     Os cenários de Orlando Faya atendem com perfeição o clima do texto e a realidade onde o mesmo se desenvolve. Nada neste espetáculo conduz o espectador a qualquer distração, salvo o riso nervoso durante algumas passagens de diálogos entre os dois personagens. Com certeza o Brasil estará muito bem representado no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, que se realiza no próximo mês na cidade do Porto, neste ano, a Capital Cultural da Europa.

by: Carlos Pinto
03/05/2001

Webmaster: Bethynha

 "O que muda na mudança,
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança,
junto ao que nunca se alcança?"
(C. Drumond )

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