OS CONFEITEIROS DE BOTEQUIM

"Vós que vireis na crista da maré
em que nos afogamos,
lembrai-vos também,
quando falarem de nossas fraquezas,
dos tempos sombrios
de que pudeste escapar".

Bertolt Brecht

 

 

 

 

 

Desde os áureos tempos em que, menino, assistia a reuniões sindicais ou políticas que era promovidas em minha casa, nas quais conheci grandes figuras da esquerda brasileira, comecei a formar uma consciência de total repúdio aos revolucionários de botequim. Aqueles tipos a quem Nizam Guanaes, em seu discurso de paraninfo de uma turma da FAAP, classifica de "Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda noite de sexta, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam."
Me parece o caso desses confeiteiros que agrediram o Deputado José Genoino, ou dos que se posicionaram contra a ida de Lula a Davos. No primeiro caso classifico como atitude covarde, alem de deselegante. Desconhecer a historia de Genoino é imperdoável. No segundo caso, é querer buscar um isolacionismo para o país, que em nada contribuirá para o nosso fortalecimento como Nação e, como povo.
De Genoino, veio a postura esperada, a resposta política carregada dos maus tempos de sua história de preso político e lutador incansável pelo aprimoramento democrático. Um aprimoramento que permite hoje, que figuras como essa confeiteira sem fronteira, sem eira nem beira, possa se manifestar da forma como fez. De certo não tem gabarito para outro tipo de manifestação. E por certo deve ter comprado a torta, em algum botequim onde passou o final de semana tentando elocubrar uma revolução no quintal de sua própria casa.
De Lula, em Davos, veio a postura de uma liderança alicerçada na luta diária, longe dos botequins freqüentados por confeiteiros e revolucionários movidos a uísque escocês. Deu o recado que o país queria. Foi no coração do corpo financeiro que move o mundo, e reivindicou uma guerra contra a fome e a favor dos menos favorecidos. Não uma guerra para tomar o petróleo do Iraque, ou para permitir que os ianques coloquem um pé na tríplice fronteira como desejam, a pretexto de que ali existe uma base da Al Qaeda.
Deixou seu recado e colocou o país nas manchetes dos principais órgãos de imprensa do mundo, como a dizer: o Brasil mudou. Não compareceu a Davos de pires na mão, como outros que o antecederam. Não fez politicagem de calça arreada, para arrumar novos empréstimos para alimentar a corrupção que assola o país.
Não sou petista. Quem me conhece sabe muito bem disso. Mas acima de tudo, das questões políticas ou ideológicas, o que me interessa e o que quero, é que o Brasil de certo. Com Lula ou sem ele. Nós, brasileiros, já estamos cansados da corrupção, dos desgovernos, da entrega do nosso patrimônio e, também, dos confeiteiros de botequim.

by: Carlos Pinto
Jornalista
(31.01.2003)
Webmaster: Bethynha

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