COMPRAS
DE NATAL
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Cecília Meireles As lojas querem
ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas
e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes,
todas as coisas que possam representar beleza e excelência. Tudo isso para
celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas,
há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém. Todos vamos
comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos,e gastaremos,nessa
dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer
a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime,
nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso. Grandes e pequenos,
parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis.
Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias,
a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não
poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria
uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o
transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário
ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade
e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco)
de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos
campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes
para o suor da testa com que — especialmente neste verão —
teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto
é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para
coisa alguma. Por isso é
que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões
para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da
ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para
nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se
um sabonete em forma de flor
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