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ROUBARAM OS COMPOSITORES DAS ESCOLAS
DE SAMBA
Os direitos autorais dos compositores
é um caso muito sério e que provavelmente só pode ser resolvido
pela polícia. Mexe e vira a gente fica sabendo de casos, nesse setor,
que entortariam o patuá de qualquer nego de cabeça firmada no pé de santo
forte. As trampolinagens, as mumunhas e os trambiques se sucedem. Piam
nas paradas truques de envergonhar Mandrake de mafuá. E nessas catimbas
todas, o lesado, a vitima é sempre o compositor brasileiro.
Devido a muita vergonheira e ao descontentamento da maioria dos grandes
compositores com suas sociedades arrecadadoras, o governo resolveu intervir
e formou um escritório, com a finalidade de cuidar do recolhimento dos
direitos autorais. Mas, sabe Deus por que, para participar desse escritório
que recebeu o nome de ECAD, chamou os mesmos senhores que dirigiam as
arrecadadoras antigas e das quais todos os compositores tinham amargas
queixas. Vai daí, tudo continuou como antes. Como antes, não. Bem pior.
Porque agora tudo é feito com o respaldo oficial, já que o ECAD é uma
organização governamental.
Para que se tenha uma idéia de como corre dinheiro pelas áreas dos direitos
autorais, basta ver que, em apenas quatro dias de carnaval, foram arrecadados
no Brasil vinte e dois milhões de cruzeiros novos. Vinte e dois milhões
de cruzeiros novos. E essa grana toda, pra ser distribuída pelos compositores.
Porém ( e sempre tem um porém), o compositor de samba-enredo das escolas
paulistanas vão continuar chamando urubu de meu louro por muito tempo,
vão continuar comendo capim amargo pela raiz, catando bagulho no chão
da feira, morando na beira dos córregos e quase se afogando toda vez que
chuviscar e berrando da geral sem influir no resultado, porque, desses
vinte e dois milhões não sobrou um único centavo furado pra eles. Pois
é isso ai. Os compositores das escolas de samba de São Paulo não receberam
direitos autorais.
Pela relação do ECAD eles não ganharam pontos. Nenhum ponto. O que vale
dizer que o compositor que não tem nenhum ponto não teve a sua musica
tocada nenhuma vez. Não foram tocadas, as suas musicas, no rádio, na televisão
nem em baile. Acontece que se pode provar que esses sambas foram tocados,
e muito. Alguns deles tiveram duas e até três gravações. Jair Rodrigues,
Noite Ilustrada, Imperiais do Ritmo, são artistas importantes, que gravaram
os sambas das escolas de São Paulo e que chegaram até a piar nas paradas
de sucesso. A Continental, fábrica que lançou o disco com os sambas das
escolas, vendeu cinco mil e novecentas unidades. Mas, nada disso deu pontos
para os compositores das escolas de São Paulo.
Tudo porque o processo de pontuação das musicas é muito estranho. São
colocados alguns fiscais em alguns bailes. O ECAD não tem fiscais para
colocar em todos os bailes realizados. Então, em alguns bailes, ficam
os fiscais com umas plaquetas que tem o nome de todas as musicas e ai
marcando quantas vezes cada uma é tocada. E pela amostragem desses bailes
onde os fiscais ficam, é feita a média para todos os outros.
E aí, já começam as mutretas. Os compositores bem chegados aos manda-chuvas
dos direitos autorais ficam sabendo com antecedência em que baile vão
ficar os fiscais.
Aparecem então no baile, assim como quem não quer nada, e pedem pro chefe
da orquestra deixar eles apresentarem suas musicas. As vezes até dão propina
pro cantor pra puxar seus sambas ou marchinhas várias vezes durante a
noite. Fazem isso em todos os bailes onde sabem que há fiscal. O que vai
lhes dar bastantes pontos no final do carnaval, só por terem cantado suas
musicas nesses bailes onde estavam os fiscais e sem ter nunca sido cantadas
nos outros salões. Cada ponto vale cento e noventa cruzeiros e um compositor
que trabalha nesse estilo consegue facilmente de trezentos a trezentos
e cinqüenta pontos por musica. Muito mais pontos conseguem os fiscais
que geralmente são compositores, de baixo nível, ou que entram em parceiradas.
Eles marcam as próprias músicas adoidadas, sem nenhuma cerimônia.
Naturalmente, essas músicas que não são tocadas e que recebem pontos
enriquecem seus compositores-fiscais com o dinheiro que deveria ser para
os autores de As Pastorinhas, Jardineira, Mamãe eu Quero Mamar, Confete
e tantas obras-primas que são sempre as mais cantadas no Carnaval. Não
foi atoa que na missa pelos quarenta anos da morte de Noel Rosa, viúvas
de grandes compositores fizeram um protesto e tornaram publico que o que
vêm recebendo de direitos autorais da obra de seus maridos é uma quantia
irrisória. Elas reclamam e com toda razão. Assim como reclamam também
os compositores das escolas de samba de São Paulo.
No ano passado, os compositores de samba-enredo das escolas paulistanas
receberam mil e quinhentos cruzeiros. O que era pouco. Mas, era algum.
Ficaram quietos. E esse ano, não receberam absolutamente nada.
O que torna a coisa muito escandalosa. Pelo critério de pontuação do ECAD,
os sambas de São Paulo não foram tocados nenhuma vez em nenhum lugar.
O que é uma absurda mentira. Eu cobri o Carnaval na Avenida Tiradentes
para a Rádio Tupi e só tocamos os sambas-enredo das escolas paulistanas.
O Edson Guerra da Rádio Record, um dos maiores incentivadores do samba
de São Paulo, também tocou muito os sambas-enredo das escolas paulistanas.
Na Bandeirantes, o Helio Ribeiro e o Amaral sempre deram muita força pras
nossas escolas, na Jovem Pan o Fausto Canova. Ainda na Tupi, Moraes Sarmento,
um defensor incansável das nossas coisas e que chegou a ser dirigente
do samba de São Paulo, botou pra frente Jangada, Geraldão, Zeca da Casa
Verde, Jordão, Edvaldo, Talismã, Silvio Modesto e todos os outros que
agora, na hora de receberem os direitos autorais arrecadados pelo ECAD,
não têm nenhum ponto.
Isso tudo é muito grave e requer uma urgente revisão. Os compositores
de samba-enredo de São Paulo têm direitos autorais a receber, com certeza.
Essa injustiça tem que ser reparada. E todo o processo dos direitos autorais
tem que ser revisto. Por essas e outras vamos cavoucar este assunto e
escancará-lo. Essas injustiças, esse roubo dos direitos autorais é que
cada vez afasta mais o compositor autêntico do Carnaval, o que resulta
numa terrível perda para a nossa cultura popular. Só os medíocres, os
oportunistas se beneficiam com esse estado de coisas, mas isso não pode
ficar desse jeito. Amanhã tem mais.
Plínio Marcos
(15.07.1977)
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