Coisas do Carnaval.

O carnaval só deixou saudade. Saudade da Alegria que findou.
Éramos um grupo de amigos que parava no bar Redondo, no coração de São Paulo, bem em frente ao teatro de Arena, hoje Eugênio Kusnet. Muitos artistas marginalizados. Todos malandrinhos. Uma turma brava. Fundamos a Banda Bandalha. Foi um sucesso.
Todas as tardes parávamos eu, Carlão da Vila, Toniquinho Batuqueiro, Geraldão da Barra Funda, Talismã, Cachimbo, Zeca da Casa Verde, Vovô Gabi, Silvio Modesto e outros. Fizemos um show. Foi um sucesso. Tinha o conjunto de Santa Isabel, batiam jongo. Foi um sucesso.
O tempo foi passando. De repente, morreu o Talismã. O Zeca e o Geraldão já não estavam bem, eram as bolas da vez. Percebi e propus um show de despedida. Eles riram, achavam que estavam mesmo no bico do corvo. Fiz minha parte, fui procurar o pessoal do Centro Cultural São Paulo, que estava vazio, sem programação. Só queríamos uma noite, qualquer noite. Ia lotar, claro que ia. Como dizia o Silvio Modesto tirando partido alto, se puxar o pagode, o pagode continua.
Mas não cederam a casa de espetáculo pra nós. Alegaram que eu hostilizava o prefeito, o tal Maluf, e todos os seus prazeres. Que coisa! Que fiz eu pra essa vingança? Num programa de televisão onde eu fazia uma entrada rápida pra dar humor ao fim de noite, comentei que no governo do Maluf tinha tanto ex-comunista que, se o governo não fosse tão burro, dava pra pensar que o Maluf tinha virado marxista. Aí, não deixaram a gente ocupar o espaço do Centro Cultural para um show de despedida. Que canseira...
Logo depois, morreu o Zeca da Casa Verde. Não demorou muito, foi o Geraldão Filme. Em seguida, o Vovô Gabi. O Cachimbo se acabou também. Ninguém teve direito a até logo. Quem mandou eu dizer o que achava da corja, daquela gente que era de esquerda e que, sem nenhuma cerimônia, correu pra direita? Mas deixa isso de lado. O que quero contar e que pesa na balança é que marcamos época. Fizemos história. Tínhamos sambas lindos. Tínhamos uma cooperativa de artistas, O Bando. Apresentamos espetáculos retumbantes. Tínhamos a Banda Bandalha. Tínhamos, sobretudo, a alegria de viver.
Quando a Bandalha ia sair, juntava gente de todos os cantos do Brasil. Ali no pedaço do Redondo (hoje um restaurante de quilo qualquer), ninguém era recusado. As pessoas chegavam e eram bem chegadas. Vinha artista do maior gabarito, de grande sucesso. E tome samba. Chegamos a sair com dez mil componentes.
Uma vez, à tardinha, a turma estava reunida, esperando a hora da Bandalha sair. Pinta na parada um soldado fardado, policia militar. O meganha trazia um pacotão embaixo do braço e falava educado:
-Seu Plínio, será que o senhor deixa eu sair na sua banda?
-Olha aqui, general, a banda não é minha, sai quem quer. Agora, só acho que não pega bem pra você sair fardado.
-Estou preparado, seu Plínio. Nesse embrulho está a minha fantasia. Se tiver um lugar, eu troco de roupa e saio numa boa.
Chamei o Antonio Porteiro (outro dos nossos que já foi falar com Deus), expliquei o drama do gambé. O que o porteiro do Arena não ajeitava? Levou o soldado pro teatro e logo o moço apareceu todo alegrinho, vestido de odalisca. O pessoal quis achar graça, ele encarou numa boa:
-Sou do Ceará, e lá é assim. No carnaval, os mais machões saem de mulher. Mas os homens se garantem.
-No Rio também é assim, e lá a rapaziada costuma levar uma navalha sob a fantasia; não dá pra ninguém fazer laúza -confirmou o Jangada.
A banda saiu bonita. Fomos levando. Já tínhamos andado bastante quando o odalisco se aproximou encabulado:
-Seu Plínio, eu só quero brincar o Carnaval. Mas tem três vagabundos que estão me provocando desde lá de longe. Eu não quero encrenca. A banda tá tão bonita...
-Fica na boa. Ninguém vai zoar com você.
Garanti chamando Julinho Capoeira, Geraldão Filme, Jangada, Toniquinho da Tiririca e dei as ordens:
-Não precisam pegar duro. Mas façam os babacões se acanharem. Empurrem os encrenqueiros pro fim da banda. Se eles encardirem, o negócio é arrepiar.
Assim foi. A rapaziada junto os três vagabundos, escovaram os pilantras e o desfile continuou tranquilo até o fim. Quando acabou, o odalisco agradeceu muito, se desculpou muito também, pegou o embrulho dele com o Antonio e desceu pelo beco até o boteco Fim do Mundo. Entrou e deu de cara com os três vagabundos. O primeiro que viu o odalisco anunciou:
-Olhaí, gente, a bicha agora tá sozinha.
O soldado foi firme:
-Tá enganado, otário. Agora é que estou acompanhado.
Abriu o embrulho, puxou um três-oitão e não teve vacilo. Distribuiu três tochas: uma na perna do primeiro, outra no braço do segundo, e o terceiro, que quis fugir, recebeu um arrebite na bunda.
O odalisco pediu uma cerveja. Bebeu sem afobação e decretou:
-Os otários vão pagar. Cobra deles.

Plínio Marcos
(14/02/1999)

Voltar...

Clique na figura acima para Voltar....

Clique aqui para enviar...

Site melhor visualizado com o MS Internet Explorer 4 ou versões superiores em 800 X 600 High Color

Webmaster: Bethynha