A
CIDADE SITIADA 

Ao se aproximar a temporada de verão,
a cidade de Santos, em especial, é aquinhoada com uma série de boatos, cujos
autores nunca são identificados. Em várias oportunidades a mídia tem aberto
espaço para as coisas mais estapafúrdias, entre as quais podemos citar a queda
da Serra do Mar, o vibrião colérico, a questão envolvendo a balneabilidade das
praias e, agora, a guerra de gangues durante os festejos de passagem de ano
nas praias santistas.
Durante o correr de dezembro foram
pródigos os boatos sobre o acerto de contas de duas gangues da cidade, que resolveram
escolher o local,a hora e o dia,de acordo com os festejos da passagem de ano.
Em vez de se investigar a origem desses boatos e, se adotarem posturas coercitivas
contra essa pilantragem, preferiu-se aconselhar aos moradores e turistas, que
evitassem a praia durante os referidos festejos.
O que se viu durante a noite de 31
de dezembro,foi a maioria da população santista entrincheirada em suas casas,
cerceada no seu legítimo direito de acompanhar com liberdade, a programação
preparada pela Administração Municipal, em função das ameaças de meia dúzia
de marginais.
A praia se transformou num espaço
cercado pelas polícias civil e militar, com a função de dar segurança aos que
se arriscaram a comparecer a qualquer trecho das nossas praias, resultando num
espetáculo carente de participação popular, para quem a festa estava destinada.
Lamenta-se a falta de objetividade
por parte dos responsáveis pela segurança diária da cidade. Houve tempo suficiente
para se identificar e retirar de circulação, essa meia dúzia de maus cidadãos,
cujo único comprometimento social é com o crime e a marginalidade. Tivesse sido
concretizada uma operação objetiva, a população poderia exercer seus direitos
e sua liberdade de ir e vir, o que na realidade não ocorreu, pois ficamos encarcerados
em nossas casas, verificando, mais uma vez, a vitória dos maus cidadãos. Salvo
erro de memória, foi Montesquieu quem colocou em uma de suas obras, que a delinqüência
prospera em um governo fraco, e se retira de cena em um governo forte. O que
temos hoje em matéria de governo, na área de segurança pública, comprova as
palavras do fundador da ciência política, na visão de Augusto Comte.
Some-se a isto, os prejuízos causados
ao comércio da orla praiana, muitos dos quais fecharam suas portas temendo qualquer
acontecimento fora da normalidade. Some-se mais o descredito que vai se acumulando
contra as autoridades eleitas e constituídas, que procuram amenizar as situações
utilizando-se de eufemismos tipo : não existem gangues, mas sim, grupos de delinqüentes.
Torna-se urgente e necessário que
se adotem posturas mais democráticas, evitando-se esse privilégio hoje desfrutado
pelos marginais. Torna-se urgente e necessária também, uma revisão do Código
Penal e do Estatuto do Menor, no sentido de, no primeiro, criarem-se penas mais
severas para os que resolvem desacatar a lei e, no segundo, separar o joio do
trigo.
Existe uma enorme diferença entre
o menor carente e o menor infrator. A este último, devem ser adotadas medidas
de caráter punitivo a partir dos 14 ou 16 anos, pois hoje em dia, com o avanço
das comunicações, torna-se difícil engolir que desconheçam as leis e regras
sociais. Também não adianta amontoá-los em unidades tipo Febem, onde apenas
vão aperfeiçoar seus conhecimentos criminais.
A solução deve vir de um todo da sociedade em conjunto com aqueles que se elegeram, pois subentende-se que ao se candidatarem, estavam preparados para adotar as soluções necessárias aos problemas oriundos do conjunto da sociedade. O que não pode mais ocorrer, é a repetição dos fatos que observamos neste final de 1999. Os cidadãos de bem, honrados, cumpridores de suas obrigações sociais, ficaram encarcerados em suas casas, para que meia dúzia de aprendizes do crime organizado, pudessem acertar suas diferenças como nos velhos filmes de faroeste, tornando quase realidade o poema de Eduardo Alves da Costa, abaixo inserido.
Na primeira noite eles se aproximam
E roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
Pisam as flores, matam nosso cão,
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles,
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a luz, e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada..........