Recebi a notícia no final da tarde. Normalmente, não sei porque, essas notícias de final do dia quase sempre são desagradáveis. Me apressei em ligar para Bauru com a esperança de que fosse um mal entendido, ou mesmo um trote. O Paulinho me confirmou a veracidade da notícia.

Em instantes passa pela nossa cabeça os vários anos de convivência, familiar, artística e cultural. Familiar, porque para nós que militamos no teatro amador paulista, no âmbito das Federações, Celina Lourdes Alves Neves, era a nossa Tia Celina. Familiar porque sempre nos tratou como se fossemos seus filhos verdadeiros. Familiar porque sempre nos recebeu em sua casa, como membros de sua família.

Todos nós que a partir dos anos sessenta, nos entregamos à causa da organização e crescimento do teatro amador paulista, tínhamos na Tia Celina, o nosso espelho e o nosso exemplo. Sua garra, sua vontade de realizar e de combater eram bons exemplos para nós. Todos nós conhecemos sua história e a de seu marido, a militância no partidão, a luta por melhores dias para todos os segmentos sociais. A luta pelo teatro que tanto amou.

Nunca teve uma palavra de desânimo, de crítica ou de maledicência para com nenhum de seus companheiros. Era sempre aquela vontade de realizar, de projetar sua cidade, a Bauru que a acolhera como filha da terra. Era intrigante olhar aquela mulher, que apesar da idade e dos problemas físicos, não se deixava abater. Havia de seus lábios sempre uma palavra de conforto, de energia e de alto astral.

Mas a Tia Celina se foi e nos deixou órfãos. É intrigante se saber que não mais a veremos, que não mais trocaremos idéias e informações pelo telefone, como habitualmente fazíamos. Mas essa é a vida. E outras haverão. Era maravilhoso escutá-la quando falava de seus filhos, quando destilava pelos olhos o amor que nutria por todos eles. Era mãe exemplar. Foi mãe exemplar.

Resta agora a saudade e a certeza de que voltaremos a nos ver em outros espaços, pois outras vidas se seguirão. A esta hora já deve estar se reunindo com outros companheiros que antes partiram, para saber o que fazer e como construir alguma coisa. Por certo está reunida neste momento, com os companheiros José Expedito, Otávio Morales, Antonio Nogueira, Antonino Assumpção, Osório Moraes, José Cirino Goulart, Orlando Dompieri e tantos outros que se adiantaram para preparar o terreno e o jardim, coberto de flores, onde todos nós haveremos de nos reunir, um dia, para criticar o governo, para defender a democracia, para propor novas idéias e projetos, enfim, para lutar por uma vida mais decente e justa.

Não digo adeus Tia Celina, apenas um até logo. Nem a morte é capaz de separar os verdadeiros amigos. Esses, viverão sempre na eternidade da saudade, das lembranças, e num lugar especialmente reservado em nossos corações. O teatro paulista sim, esse lhe dá um adeus, agradecido pelo exemplo que a senhora frutificou em todos nós, seus afilhados.

by: Carlos Pinto
13/08/2000

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