|
O FIM DE UM CAGÜETE
Bateu sujeira na sombra do Alvinho
e toda a cana saiu na sua captura. Sem outro jeito, ele teve que se arrancar
do seu pedaço. Foi se mocozar nas encolhas de um parceiro de fé, o Vado,
ponta-firme. E era daí que, de noite, se mandava pra estarrar os loques
e defender seu lado, porque a situação estava encardida e não dava pé
deixar tudo por conta do companheirinho.
Com essas e outras, podia levar a barca até pegar uma estia e sua barra
ficar mais leve. Acontece, porém, que o cupim andava roendo o seu peito
e a caixa de catarro, falhando. Vontade de tuberculoso é broca. E o Alvinho
queria. Como queria! Dia e noite, só tinha vontade da Madalena, uma cabrocha
de alta linha, que não deu pra ele carregar na hora do pinote. No que
fez mal. Ela, longe, era carga mais pesada. Durante as horas em que ficava
enfurnado, sem poder botar a fuça na rua, só pensava nela. Por mais que
se esforçasse, não tirava a mina da cuca. Era uma zorra. Um troço de abilolar.
Numa noite, depois de arroxar uma farmácia, de onde, além da grana, afanou
umas bolinhas, se chapou e não se agüentou. Anunciou pro Vado:
-Meu bom, num tou podendo comigo. Vou ver a Madalena.
O cupincha, que estava por dentro das quizilas, se espantou e quis cortar
a onda:
-Guenta aí! Tu vai dar sopa pro azar por que? Os homens sabem da tua gamação
na Madalena. Eles tão só aí na campana. De botucas ligadas no barraco
dela. Se tu pia lá, eles te ganham fácil.
Pro Alvinho, aquele papo era do cacete. Sabia que tudo que o Vado falou
era positivo. Mas, estava encabreirado. Ardido por dentro. Andou de bobeira
de um canto pro outro do mocó. Botou tudo na balança. Ficar enrustido
ali era o mesmo que estar na cela. E a Madalena era sua gama de pedra.
Valia o risco. Cismou e selou:
-Vou sim.
Afirmou com a força de quem sabe querer. O parceiro sentiu o lance. Só
chiou por chiar:
-Se tu quer mulher, eu dou uma banda por aí e trago duas pistoleiras pra
gente. Não precisa tu ficar dando carga à toa.
Esse plá até atucanou o vagau, que estrilou:
-Que mulher, poxa? Eu só quero é a Madalena! E tchau mesmo.
Botou o pé no mundaréu e deixou o Vado falando sozinho. Atracou na Favela
do Buraco da Lacraia de madrugada. Estava tudo em silêncio. O Alvinho
espiou os caminhos e se tocou que estavam todos livres. Nem um tira, nem
um cachorrinho estava de plantão. Avançou se esgueirando entre os barracos.
Não teve escama. Chegou fácil à morada da Madalena. Bateu de leve, que
não estava a fim de escarcéu. Nesse momento, um vulto apareceu no fundo
do beco. O Alvinho se ouriçou. Mediu a distância e viu que, se a figura
fosse da lei, não tinha escapatória. Não dava pra correr. O jeito era
encarar. Levou a mão na arma. Mas, teve um breque. O vulto que vinha se
aproximando manjou o movimento e o reconheceu. Maneirou:
-Que é que há, Alvinho? Vai me estranhar?
O alô relaxou o salseiro. Pro Alvinho, foi o alívio. Neste instante, a
Madalena abriu a janela, se assustou de ver ele ali. Fez dengo antes de
abrir a porta. E o Alvinho não quis saber direito quem tinha cruzado com
ele. Se era chapa ao ponto de reconhecê-lo no escuro, estava legal. O
resto era só com a Madalena. E não deu outra coisa. Matou a saudade.
Os primeiros raios de sol iluminavam a favela, quando a gronga se deu.
No meio do seu sono satisfeito, o Alvinho foi despertado por um berro:
-É cana, Alvinho! Tu tá cercado. Se sair legal, ninguém vai te esculachar.
Se aprontar, a gente te dança. Tu tem um tempo pra escolher.
Foi broca. A Madalena se botou a rezar. O Alvinho estava feliz. Todo satisfeito.
Depois de tanto amor, não queria guerra. Queria paz pra poder Ter sempre
a sua Madalena. E estava disposto a pagar por tudo. Virou pra mina e pediu:
-Tu vai me ver? Tu me espera?
Ela olhou nos olhos dele e estava jurado. Não precisa palavra entre os
amantes que se amam. E então o Alvinho iniciou o trato:
-Quem tá aí no mando?
Um tira jovem, meio afobado, doido pra mostrar valentia, era o mais próximo
e foi quem engrenou o papo:
-É o Doutor Diogo.
O Doutor Diogo era manjado pelos bandidos. Não era bronqueado. Só cumpria
seu papel. Não dava pancada à toa, nem desmoralizava valente nenhum. Prendia
do jeito que desse. Quem se rendia pra ele, não penava. Aquilo era bom
pro Alvinho. Ele avisou:
-Tá legal! Vou sair.
Porém, aí, uma idéia de jerico lhe bateu na cachola. Jogou verde:
-Vou sair manso. Só que tem um negócio. Quero saber quem me dedou.
Deu certo. O tira jovem deu mancada. Sem pensar, deu a ficha:
-Foi o Tisiu.
Como resposta, o Alvinho jogou a arma pela janela. Ainda escutou o Doutor
Diogo bronquear:
-Tá falando muito. Quem te mandou cantar a bola?
Mas, isso não interessava pro Alvinho. Ele beijou a Madalena. E, já saindo
disse:
-O Tisiu é quem me viu entrar aqui. Deixa ele.
Sem mais assunto o Alvinho se largou na mão dos tiras. Eles, sem perder
tempo, meteram as argolas no bandido e o levaram pelos becos da favela,
rumo ao carro que estava parado em frente a uma padaria. E na porta da
padaria, assim como quem não quer nada, o Tisiu sapeava o lance. O Alvinho
tirou ele na pinta. O crioulo desviou o olhar. Mas, teve que escutar uma
promessa:
-Tá legal, Tisiu. Tá legal. Agora, tu se lembra que tem sempre um dia
atras do outro.
Nas quebradas do mundaréu, até as pedras se encontram. E quem não tem
roda larga, acaba sempre comendo capim pela raiz. Um dia, o Tisiu se estrepou.
Estava devendo pros homens e entrou em pua. Fez uma mixórdia. Chorou,
implorou, pediu pelo amor de Deus pra não meterem ele no mesmo pavilhão
que o Alvinho. Conseguiu. Mas, logo o outro soube da entrada do caguete
e daí pra frente perdeu o sossego. Passava o tempo todo tramando um jeito
de apanhar o Tisiu. Até que veio a vez. Os bonzões do presídio armaram
uma treta cavernosa. Rebuliço geral pra, no meio da confusa, ganharem
fuga. O Alvinho topou de primeira. E a catimba se deu. Rolo grosso. A
curriola toda querendo ganhar a rua. Só o Alvinho não queria se mandar.
Seu acerto era com o Tisiu. Foi pra decisão. Varou grade, parede, bala
e tal e coisa. Passou pro pavilhão em que estava o caguete. Deu congesta
no carcereiro, pegou as chaves e invadiu a cela do Tisiu. Se plantou na
frente do rato e puxou uma navalha. O crioulo se jogou de joelhos e implorou:
-Tem pena de mim, Alvinho. Eu não te sacaneei por gosto. Os homens me
apertaram. Te juro por essa luz que me ilumina.
Foi a última vez que o Tisiu falou na desgraçada da vida. Hoje,
quem for à Favela do Buraco da Lacraia e passar perto das malocas vai
ver, parado na porta de uma padaria, esmolando, a triste figura de um
crioulo sem língua.
Plínio Marcos
(24/10/1999)
Clique na figura acima para voltar
Webmaster Bethynha
|