A Farra do Boi...

Fernando de Noronha...

 

O título acima nada tem a ver com o folguedo açoriano que representa uma das maiores manifestações do folclore popular de Santa Catarina. Tem a ver sim, com as coisas que ocorrem neste país nos dias de hoje, que fazem corar de vergonha um monge budista. O país está transformado em um enorme salão de cabeleireiro, onde sobram grampos para todos os lados, a partir das denúncias da revista Carta Capital sobre as atividades da CIA e da DEA no Brasil, terminando nesta cobertura da Folha de São Paulo, sobre a privatização do sistema Telebrás, como a nos determinar que a privacidade telefônica inexiste.

Mas, se por um lado esta invasão da privacidade possa ser determinada como uma aleivosia, por outro, dentro deste panorama da falta de transparência das ações governamentais, acaba por transformar-se na única maneira do povo tomar ciência do que ocorre nos bastidores da república. Além destes inusitados contatos telefônicos de terceiro grau, disponíveis na internet para quem deles se interessar possa, alguns com uma linguagem de fazer inveja aos melhores textos de Plinio Marcos, existem outras questões que envolvem atitudes e ações de membros do governo que precisam ser devidamente esclarecidas.

Uma delas, relaciona-se com o uso indiscriminado dos aviões da FAB para roteiros turísticos em Fernando de Noronha e outras viagens afins. Nem entro no mérito do custo de cada uma dessas viagens, mas também, não adianta ministro ocupar a mídia para dizer que também tem direito a férias e descanso. Ninguém se opõe a isso. O que nós, brasileiros, contestamos, é o fato de agentes do governo efetuarem seus descansos e suas férias às custas do cofre da viúva. Ou vamos todos, juntos, passar a fazer turismo e mandar a conta para o erário público ou, restauremos a moralidade, como dizia o saudoso Stanislaw Ponte Preta.

No estado de abandono em que se encontra a arte e a cultura neste país, como encontrar argumentos para a defesa do nosso Ministro da Cultura, cuja utilização dos jatinhos da Força Aérea ultrapassa a casa das quatrocentas viagens ? E o que dizer do filho de um Ministro que há mais de um mês produz despesas no hotel de trânsito de Fernando de Noronha, sob a alegação de estar realizando pesquisas ? Será que os filhos de outros brasileiros, que não fazem parte do império tucano também têm os mesmos direitos ?

Existem fatos e ações que possam não carregar em seu bojo o espectro da ilegalidade, mas, que no momento em que são concretizadas, exalam o odor acre da imoralidade. Não importa se o governo pretendia o melhor para as finanças públicas no episódio da privatização do sistema Telebrás. O odor que exala dessas fitas grampeadas é característico de fatos que permitem o aparecimento da dúvida.

Igual raciocínio, para os assuntos relacionados com a nossa ilha da fantasia e os roteiros turísticos ministeriais ali desenvolvidos. Esta situação e sucessão de fatos pitorescos que o país atravessa, se assemelha em muito à comédia grega, que era verdadeiramente uma obra de arte, tal a beleza de seus versos, tanto na parte formal quanto na grande dose de lirismo que vamos encontrar em trechos de quase todas as que sobreviveram até nós. Era notável a habilidade dos poetas em transformarem a vulgaridade dos assuntos e situações, elevando-os a um nível da mais bela fantasia. Existiam argumentos que abordavam conhecimentos da estética, da filosofia, da atual sociologia, de assuntos mais elevados, que nos fazem crer, hoje, estarem as platéias de então plenamente aptas a ouvi-las e entendê-las. Nas comédias em geral, o autor efetuava críticas políticas ao modo de vida ateniense, pondo em relevo a falsa moral e os vícios da sociedade.

O que se lamenta nos dias de hoje, é que não existam mais no país os comediógrafos da estirpe de um Silveira Sampaio, que por certo, teriam ao seu dispor um manancial inesgotável para temas de suas comédias que, alinhavadas em uma trilogia poderia, quem sabe, intitular-se : A Farra do Boi.

by:(Carlos Pinto)

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