BIRA MORFÉTICO

Tem gente quer nasce sujo de arara e, por mais que se esforce, não tem jeito de tirar o pé do lodo. O Bira Morfético veio na piorada e ainda conseguiu se atolar mais. Cria maldita dos puleiros das piranhas, ainda pivete ficou entregue a si próprio. A mãe não agüentou o repuxo e, num momento de desespero, bebeu creolina. Sem tomar conhecimento do Bira, a mulher embarcou. Foi falar com Deus. Como não tinha pai, o pivete teve que se valer sozinho. E ele, por ele mesmo, era muito pouco. Quase nada. Ainda mais ali, nas bocas escamosas das quebradas, onde o jogo é bruto e a ordem é a do "salve-se-quem-puder".
Porém, o Bira foi levado pra frente. Apanhando as sobras, encarando a sorte encardida como dava, se atucanando de fome e de frio. Claro que se machucou, se marcou e se sentiu no prejuízo. Mas, por não ter contra quem chorar, segurou as pontas. Debaixo das pancadas, se fez duro e sacana. O que conta é que se escolou. Abriu os olhos de ver. Viu. Aprendeu os trampos e os macetes. Se fez gente. Podia escolher seu rumo. Foi quando se entortou ainda mais.
Uma ferida nojenta apareceu na mão do Bira. A principio, ele não ligou. Se limitou a coçar a gronga e a esconder a mão no bolso. Até que, um dia, a miséria ficou escancarada. Foi em cana que adivinharam o perereco. Ele tinha entrado num rapa geral. Estava aguardando os tiras verificarem se ele não estava devendo nada pra justiça. Como ele sabia que não estava premiado, se plantou tranquilo. Mas, um companheiro de cela meteu as botucas na mão do Bira e fez um escarcéu. Anunciou para os outros presos que havia um morfético ali presente. A bobeira foi coletiva. Isolaram o Bira num canto do xadrez e meteram a boca no trombone. Fizeram a maior zoeira pro carcereiro tirar o morfético da cela. Coisa que demorou pacas.
Enquanto esperava que o dono da chave lhe desse destino, o Bira se roeu de mil maneiras. A idéia de estar morfético lhe fundiu a cuca. E o fato de ser enjeitado pelos companheiros lhe ardeu na alma. Rejeição sempre fora o seu problema. E ali, no canto da cela, o Bira sofreu e cresceu. Se agoniou. Reviu lance por lance da sua vida, quantas vezes quis, ou teve coragem. Constatou que só tinha comido da banda podre. Nunca havia sido o mais forte, nem o mais sabido, nem o mais bonito. E, nessa hora da verdade, se picou de raiva e se jurou. Selou no íntimo que, se estivesse morfético, iria se tornar o capeta.
E estava.
Depois de dois dias de espera, o Bira foi levado ao médico. Só de olhar a ferida na mão do preso, o doutor já deu a sentença:
-Isolamento pra ele.
E não adiantou estrilo. Arrastaram o Bira pro hospital dos morféticos. Ele foi contra vontade. E só se aguentou lá uma semana. A vigilância era mole e ele se mandou. Não quis saber de tratamento. Tinha na cachola uma bola maluca e que ria botar pra quebrar. Voltou pras bocas. A noticia já tinha chegado na frente. Todo o povão do esquisito sabia que ele estava morfético. E ele passou a ser conhecido como o Bira Morfético. Coisa que ele até achou legal. Porque, daí prá frente, era só seu nome piar na parada pra curriola tremer nas bases. E ele passou a se servir. Os donos dos botecos, das gafieiras, dos mocós, dos pontos de bicho, dos paiós de maconha e dos cambaus, pagavam ao Bira pra ele não chegar perto dos pesqueiros. E choveu na horta do morfético. A grana que ele queria ele tinha. Mas, pra ele, isso não era o suficiente. Seu negócio era fazer maldade. Não queria se tratar, nem nada. A bronca que ele tinha das pessoas era muito grande. Ele só queria se vingar. E, pra isso, se aparelhou. Comprou um revólver e começou a aprontar toda espécie de salseiro. Assaltava e esculachava qualquer um.
Por destino, a ferida que lhe comia a carne poupou os dedos do gatilho. Mindinho, Seu-Vizinho e Pai-de-Todos caíram de podres. Ficaram Fura-Bolo e Mata-Piolho. Com esses, o Bira manejava a arma. E possuía uma pontaria certeira. Foi com essa pontaria e com a doença, que ele fez o seu reinado. Ficou o bandido dos bandidos. Uma besta-fera. Nele, não existia a mínima gota de amor. Mas, também, nunca ninguém lhe dera a mínima gota de amor. As mulheres que conseguia era na marra. E muitas, depois de estarem com o Bira, se matavam, com medo de terem ficado premiadas. Nunca o morfético se tocou. Queria que se danassem. Achava bem feito. A sua maior abilolação era quando alguém demonstrava nojo por ele. Teve uma vez em que o Bira matou três num embalo, porque os negos se acanharam e não quiseram apertar a mão que o morfético lhes estendera. Diante da recusa, o Bira não regateou: puxou a arma e arrebitou todos eles. E não tinha esquinapo pro morfético. Os policiais também evitavam dar-lhe uma prensa. Mesmo porque sabiam que não adiantava. Por ser doente, o Bira era mandado pro isolamento. E de lá, fugia.
E o Bira, por essas e outras, ficou o terror de todos. Até que se enrabichou pela Irene Picega, uma pistoleira com muitos anos de janela. Nos primeiros encontros que teve com o morfético, tirou ele de letra. Tratou o Bira bem. Não ouriçou por causa da mão, não se arredou, mas também não deu pedal pra abordagem. Cozinhou o galo. E o morfético gamou. Como ninguém é de ferro, o Bira estava precisando há muito tempo de uma relação de igual pra igual. E se iludiu na embaixada da Irene. Rodeou enquanto pôde. Vários meses o Bira ficou na paquera. Se enredou tanto, que até deu estia pro povão. Nas águas da Irene, o morfético deixou andar e a curriola pôde respirar.
Porém, a idéia de jerico atacou o Bira e ele se abriu com a Irene Picega. A mulher quis sair fora. Não deu. Levou a prensa e o Bira ganhou a mina na congesta. A Irene, quando se viu livre do Bira, se empapuçou de cachaça. Com o pretexto de se desinfetar, encharcou de álcool suas roupas e tacou fogo. Virou uma fogueira. Toda gente viu a mulher arder. O Bira também assistiu ao incêndio. Não fez nada pra apagar o fogo e não deixou os outros apagarem. Só se afastou depois que a mulher assou inteira. Saiu murcho, devagarinho e sumiu na noite.
No dia seguinte, foi encontrado estarrado com um tiro na orelha. Tinha se matado. Foi esse o fim do pior bandido que já pisou nas quebradas do mundaréu.

Plínio Marcos
(17/10/99)

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