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Semanas atrás, lemos nos jornais a notícia, e vimos na TV as imagens, de um fato fantástico, maravilhoso, que só poderia ter acontecido no Brasil: fato de extraordinário valor simbólico, paradigmático. Coisa de contar aos netos! Em um presídio de São Paulo, alguns soldados deram uma inequívoca demonstração da inesgotável criatividade do povo brasileiro: cansados da rotina, sem fazer nada de produtivo, dia-a-dia; doentes de monotonia, em posição de sentido em cima dos muros, horas a fio, vigiando o silêncio, entediados... resolveram fabricar belos bonecos de palha verde-amarela, e colocá-los, nas guaritas, em seu lugar. O visual era o mesmo. Os bonecos, obedientes, lá ficaram vigiando, fuzil empinado, o olhar de palha poeticamente perdido no infinito azul celeste - e os soldados de carne e osso desceram, e foram tratar do prosaico cotidiano de suas vidas... e a vida continuou, como se nada tivesse acontecido. Nada tinha. Essa foi uma prova cabal de como o povo brasileiro é capaz de criar sua própria cultura, usando os poucos, escassos meios de que dispõe: àqueles soldados repletos de engenho e arte! a sua liberdade custou apenas um monte de feno, muita criatividade... e um uniforme da corporação. Disse eu, há pouco, que
esse episódio tinha um caráter exemplar, e é verdade:
no atual Ministério da Cultura, dezenas de postos, há
oito anos, estão sendo ocupados por bonecos de palha. Seus legítimos
ocupantes homens sólidos, sérios, bem intencionados
- por absoluta falta do que fazer e por imenso tédio, há
muito já se foram, e deixaram bonecos em seu lugar. Temos a impressão
de que o Ministério da Cultura ainda existe, mas, se dele necessitarmos,
descobriremos que os bonecos, perfeita imitação de funcionários
zelosos, não atendem aos telefones, não respondem aos
apelos, não aceitam o diálogo: são cegos, surdos
e mudos - são de palha. O que pedimos ao Lula? Apenas isso: pedimos que, já no primeiro dia do seu Mandato, substitua esses bonecos de tanta palha, e coloque naquele Ministério homens e mulheres apaixonados pelo trabalho que se pode, que podem, que podemos todos fazer pela cultura brasileira. Qual cultura? Lula já tantas vezes disse e tantas vezes concordamos! que a cultura não é um produto apenas destinado à venda, mas é, sim, a obra e a identidade do nosso povo. Esse povo pode e deve consumir cultura, mas deve e pode produzi-la. Nesse novo Ministério, sem bonecos de palha, deve-se apoiar a cultura profissional, é claro, combalida e aturdida desde a onda neo-canibal de privatizações, que veio, primeiro, velada, através da Lei Sarney, e que recebeu o tiro de misericórdia da Lei Rouannet, escancarada. O Ministério deve ajudar a que se reergam museus, o cinema, o teatro, a dança, a música, a ópera e todas as artes. Hoje, os artistas profissionais estão reféns das empresas que os patrocinam e o Ministério deve ajudar a que esses artistas sejam, plenamente, artistas que possam criar o que desejarem e não apenas o permitido. O Estado tem o dever da ingerência! Esse novo Ministério deve também inovar, deve revolucionar o conceito usual da palavra cultura, e deve afirmar, sem ambigüidades, que todo ser humano produz cultura: é artista! Deve defender os direitos humanos, sabendo que entre todos os direitos humanos, o primeiro direito do ser humano é o de ser humano, e a humanidade que existe em cada um de nós só pode florescer através da sua cultura específica, ampla e irrestrita. O Estado tem o dever de criar as condições para que desabrochem as cem, as mil, as cem mil flores da metáfora chinesa! Eu não tenho coragem de fazer afirmações pomposas, tonitruantes embora queira, não é meu feitio. Não tenho coragem, por exemplo, de dizer que só a arte pode salvar o Brasil. Seria exagerado, e eu sou um homem comedido, modesto, um homem simples. Por isso recorro aos sábios reconhecidos, aos sábios de valor universal, e peço emprestada - ao grande escritor russo, Dostoievski - a frase que está agora mesmo pintada nos muros da Oca do Ibirapuera, em São Paulo, na grande Exposição de Arte Russa. Logo à entrada, a gente leva um tremendo susto, porque, na parede em frente, pode-se ler a genial frase daquele sábio: Só a Beleza Salvará o Mundo! Apoiado naquele gênio irrecusável, eu, sem-vergonhamente plagiando aquele romancista, digo uma grande verdade:
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