BELOS BONECOS
by: Augusto Boal

Semanas atrás, lemos nos jornais a notícia, e vimos na TV as imagens, de um fato fantástico, maravilhoso, que só poderia ter acontecido no Brasil: fato de extraordinário valor simbólico, paradigmático. Coisa de contar aos netos!

Em um presídio de São Paulo, alguns soldados deram uma inequívoca demonstração da inesgotável criatividade do povo brasileiro: cansados da rotina, sem fazer nada de produtivo, dia-a-dia; doentes de monotonia, em posição de sentido em cima dos muros, horas a fio, vigiando o silêncio, entediados... resolveram fabricar belos bonecos de palha verde-amarela, e colocá-los, nas guaritas, em seu lugar. O visual era o mesmo.

Os bonecos, obedientes, lá ficaram vigiando, fuzil empinado, o olhar de palha poeticamente perdido no infinito azul celeste - e os soldados de carne e osso desceram, e foram tratar do prosaico cotidiano de suas vidas... e a vida continuou, como se nada tivesse acontecido. Nada tinha.

Essa foi uma prova cabal de como o povo brasileiro é capaz de criar sua própria cultura, usando os poucos, escassos meios de que dispõe: àqueles soldados – repletos de engenho e arte! – a sua liberdade custou apenas um monte de feno, muita criatividade... e um uniforme da corporação.

Disse eu, há pouco, que esse episódio tinha um caráter exemplar, e é verdade: no atual Ministério da Cultura, dezenas de postos, há oito anos, estão sendo ocupados por bonecos de palha. Seus legítimos ocupantes – homens sólidos, sérios, bem intencionados - por absoluta falta do que fazer e por imenso tédio, há muito já se foram, e deixaram bonecos em seu lugar. Temos a impressão de que o Ministério da Cultura ainda existe, mas, se dele necessitarmos, descobriremos que os bonecos, perfeita imitação de funcionários zelosos, não atendem aos telefones, não respondem aos apelos, não aceitam o diálogo: são cegos, surdos e mudos - são de palha.
Esse governo que ora finda, que ora se extingue, que ora se apaga – esse governo que já ficou conhecido como o Governo do Apagão e da dengosa Hepatite – esse governo tem, naquele Ministério, o seu emblema. É ele quem, zeloso, apaga todos os focos de resistência cultural que ainda teimam em arder em nosso Estado: a Casa de Pascoal, que abrigava centenas de artistas vindos do Brasil inteiro e do Exterior; a Fazenda do Arcozelo, onde milhares se encontravam, todos os anos, para diálogos e festivais; a livraria do Teatro Glauce Rocha, que teve suas prateleiras esvaziadas... e paro por aqui, pois só quero falar do Rio, e só dos últimos meses: tudo fechado... ou fechando!

O que pedimos ao Lula? Apenas isso: pedimos que, já no primeiro dia do seu Mandato, substitua esses bonecos de tanta palha, e coloque naquele Ministério homens e mulheres apaixonados pelo trabalho que se pode, que podem, que podemos todos fazer pela cultura brasileira.

Qual cultura? Lula já tantas vezes disse – e tantas vezes concordamos! – que a cultura não é um produto apenas destinado à venda, mas é, sim, a obra e a identidade do nosso povo. Esse povo pode e deve consumir cultura, mas deve e pode produzi-la.

Nesse novo Ministério, sem bonecos de palha, deve-se apoiar a cultura profissional, é claro, combalida e aturdida desde a onda neo-canibal de privatizações, que veio, primeiro, velada, através da Lei Sarney, e que recebeu o tiro de misericórdia da Lei Rouannet, escancarada. O Ministério deve ajudar a que se reergam museus, o cinema, o teatro, a dança, a música, a ópera e todas as artes. Hoje, os artistas profissionais estão reféns das empresas que os patrocinam e o Ministério deve ajudar a que esses artistas sejam, plenamente, artistas – que possam criar o que desejarem e não apenas o permitido. O Estado tem o dever da ingerência!

Esse novo Ministério deve também inovar, deve revolucionar o conceito usual da palavra cultura, e deve afirmar, sem ambigüidades, que todo ser humano produz cultura: é artista! Deve defender os direitos humanos, sabendo que entre todos os direitos humanos, o primeiro direito do ser humano é o de ser humano, e a humanidade que existe em cada um de nós só pode florescer através da sua cultura específica, ampla e irrestrita. O Estado tem o dever de criar as condições para que desabrochem as cem, as mil, as cem mil flores da metáfora chinesa!

Eu não tenho coragem de fazer afirmações pomposas, tonitruantes – embora queira, não é meu feitio. Não tenho coragem, por exemplo, de dizer que só a arte pode salvar o Brasil. Seria exagerado, e eu sou um homem comedido, modesto, um homem simples. Por isso recorro aos sábios reconhecidos, aos sábios de valor universal, e peço emprestada - ao grande escritor russo, Dostoievski - a frase que está agora mesmo pintada nos muros da Oca do Ibirapuera, em São Paulo, na grande Exposição de Arte Russa. Logo à entrada, a gente leva um tremendo susto, porque, na parede em frente, pode-se ler a genial frase daquele sábio: “Só a Beleza Salvará o Mundo!”

Apoiado naquele gênio irrecusável, eu, sem-vergonhamente plagiando aquele romancista, digo uma grande verdade:

Lula, só a Cultura salvará o Brasil!

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