
O BATISMO
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O Zico estava agoniado.
A campana que estava fazendo era uma zorra. Seus companheiros na presepada,
o Babalu, o Carriça e o Negritinho, não tomavam nem conhecimento do esquinapo
que estava pra se dar por conta deles. Tiravam o lance de letra. Eram vagaus
escolados, com muitos anos de janelas nas quebradas do mundaréu. Estavam
à vontade.
Se fingiam de mortos pra ver quem vinha no enterro. Já o Zico estava cabreiro.
Era a primeira vez que ia entrar num bate-fundo de arma na mão. Era a sua
hora da verdade e não podia ser mancada. Se fizesse besteira, não iria ter
perdão.
Além do esculacho que levaria dos parceiros, ficaria manjado nas bocas encardidas
de todo esquisito, como molenga, e não ia prestar. Ninguém mais botaria
fé na sua embaixada e seu destino ficaria selado. Estaria condenado a marcar
bobeira pra toda a vida, se virando em trambiques escamosos que não dão
divisas pra malandro nenhum.
Eram essas as mumunhas que atucanavam a cuca do Zico, enquanto esperava
junto com os companheiros, ali nas encolhas pra dar uma hora e estarrar
um caminhão de gás que, segundo o Carriça, sempre passava naquele pedaço
no cair da tarde.
E, ainda no papo de quem sabia das coisas, o chofer vinha com a féria do
dia no bolso e seria uma sopa. Mais mole que tomar pirulito de criança.
Por isso, o Zico tinha sido convidado. Era, na opinião do Negritinho, que
foi quem meteu o bico na canoa furada, uma chance pra ele mostrar que era
ponta - firme pra fazer presença na curriola da pesada. Se não, estava frito.
Já era maior de idade e não poderia ficar flanando em serviço de pé de chinelo.
Numa dessas butadas, acabava entrando em cana e em cela de vadio ia ser
o esparro, comer da boca do boi. Tinha que fazer nome e ganhar respeito.
Já que escolhera a bandidagem, o negócio era partir pras cabeceiras.
Só que o Zico não tinha escolhido bulhufas. Nascera sujo de arara, com urubu
pousado na sua sorte, e quebrou a cara de saída. Nunca soube quem foi seu
pai, da mãe, soube pouco. Contaram-lhe que a mulher que o pariu, logo depois
de botá-lo no mundo, ficou ruim dos peitos e não se agüentou. Quando se
tocou que o cupim ia roer a sua caixa de catarro, sem dó e sem remédio,
pediu estia pra madame dona da casa, deu o Zico pra ela, bebeu querosene
e desertou da piorada que levava. A madame batizou o Zico e deixou andar.
Cuidou dele aos trancos e barrancos.
Velha nojenta, gorda e perebenta, pistoleira catimbada e aposentada, de
corpo gasto e alma estraçalhada, cuca fundida e olhos de enxergarem pouco,
se desforrava dos revertérios que topara pelos caminhos, em cima do Zico.
E, de tanta pancada, o pivete se fez duro ou sacana. Se picou de raiva.
E, assim que se sentiu taludinho, deu uma banana pra pagar tudo que a madrinha
lhe aprontara e se arrancou. Foi tratar de si. Se misturou com a molecada
das zonas rebordosas e foi levando como podia. Aprendeu pro gasto do dia
a dia. Afanar carteira, chuveirar gringo bebum que se largava nos cabarés
a fim de embrulhar a solidão em lençóis encardidos, levar recado de bandido
mocozado, bancar farol em ponto de bicho. Por ai se defendia. De vez em
quando, entrava em fria. Ganhavam o Zico e metiam ele no reformatório. Mas,
pra ele, a fuga era uma canja. Não ficava recolhido por muito tempo. E foi
assim que cresceu e chegou onde chegou. Um cantão de estrada, com um revolver
na mão, na companhia de três bandidões, à espera de um bilhete premiado
que viria na forma de um caminhão de gás, com dois trabalhadores honestos
e cheios de filhos pra sustentar. E ele, Zico, teria que topar do jeito
que desse.
E ali, na moita, revia seu passado e concluía que não podia falhar.
Mas, de repente, teve que cortar a onda. O caminhão apareceu e o Babalu deu a ficha:
- Lá vem ele. É com nos mesmo.
O Carriça e o Negritinho puxaram as armas e o ultimo deu uma dica pro Zico:
- Dureza, pivete bom. Calma. Mas, em duvida, dá no gatilho. Não tem pena de fazer estrago. Defunto não sofre. Mas, veja lá. Não vai se afobar. Afobado come cru ou queima a boca.
Daí pra frente,
não teve mais quás - quás - quás. O plano já estava traçado e foi lançado.
Quando o caminhão se aproximou, o Babalu atirou bem na bucha do pneu da
frente. A carangola se desgovernou. O chofer teve que rebolar pra não sair
da estrada. Com muito esforço, conseguiu brecar. Aí, o gango atacou.
Dois de cada lado. Com conhecimento do assunto, o Babalu e o Carriça arrancaram
o ajudante da cabina e o renderam. Porém, do lado do chofer, bateu sujeira.
Sem cancha, o Zico subiu no estribo e meteu a arma na fuça do motorista,
um baiano invocado que não era de comer enrolado. Desconheceu o perigo e
engrossou.
Abriu a porta com rapidez e deu com ela em cheio no Zico. O pivete despencou.
O chofer passou a mão numa alavanca e desceu disposto a tudo. Caído no chão,
o Zico botou o baiano na mira. Mas, ainda não era um matador e vacilou.
Quis ganhar a guerra na sugesta. E boquejou:
- Se acanha, trouxa. Vê lá o que tu vai fazer. Se tu deixar barato, tu não se machuca. O dinheiro que a gente quer não é teu. É do teu patrão. Por que tu vai morrer por ele?
Com essa conversa, o chofer viu que o Zico não era grande coisa e achou que podia lhe tomar o revolver. Não contou com o Negritinho, que só espiava pra ver o bicho que ia dar. Pinta frio, queria ver o comportamento do Zico. Só deu ordem quando o baiano levantou a barra de ferro pra largar no vagau caído:
- Atira, Zico! Apaga o loque, se não ele te esmaga.
Ao escutar a voz
do Negritinho, o chofer balançou. Levantou os olhos pro novo inimigo. Sem
sair do chão, o Zico via tudo. E viu quando o crioulinho dedo - mole mandou
um arrebite certeiro. O caroço entrou na testa do chofer. O tampão da moleira
saltou. Espirrou sangue e miolo pra todo lado. O motorista desabou.
Já caiu morto. O Negritinho achou uma tremenda graça. Rindo, entrou na cabina
do caminhão e recolheu o dinheiro. Ainda rindo, deu o plá:
- Vamos nós, gente. Tá tudo certo.
E foi andando. Vendo que o Zico não saia do chão, deu um berro:
- Se manda Zico. Esse loque já foi falar com Deus.
O Zico desencantou. Ficou em pé e seguiu os companheiros. Entraram no mato e, por uma trilha marota, se espiantaram. O Zico ia ruim dentro da roupa. Tinha enjôo no estômago e a todo momento parava pra vomitar. O Babalu bronqueou:
- Que zorra! Trazer pixote em jogada dá nisso.
Porém, o Negritinho maneirou e deu destino pro Zico:
- Que nada, gente! O garoto é ponta - firme. Vai ser matador. Na primeira vez que se apaga um pinta é assim mesmo. A gente vomita, vai na igreja rezar pela alma do desgraçado, tem sonho ruim, carrega fantasma para lá e pra cá. Depois do segundo, não dá mais truta. Com o Zico não vai dar outra coisa. Hoje, foi o batismo dele.
by: Plínio Marcos
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