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Carnaval não é só
baile de salão e desfile de escolas de samba e de blocos. Carnaval
tem muitos outros aspectos, porém ( e sempre tem um porém),
esses outros aspectos não são considerados pela Prefeitura
de São Paulo. E aí, já viu. O carnaval paulistano
se resume no desfile das escolas e nos bailes. Assim sendo, ou o cronista
de carnaval de rua fala do desfile das escolas, ou não fala nada
(ou, quem sabe, fala do nada). Mas eu sou de falar do que vejo e aí,
fico no papo de aranha, porque assistir a desfile de escola de 3º,
4º grupos em São Paulo é tarefa de entortar patuá.
No terceiro grupo, por exemplo, desfilaram dezenove escolas (ou deviam
desfilar, não deu prá contar direito). Mas, a maioria dessas
escolas não dariam nem alas das escolas do 1º grupo. E não
dariam alas de escola de 1º grupo não apenas pelo número
de componentes. Não dariam alas porque a maioria delas não
são escolas de samba. São invenções da Prefeitura,
que dá dinheiro a um grupinho de pessoas e, com isso, incrementa
a quantidade, sem se importar com a qualidade. Então, o que acontece
é que, das cinqüenta e duas agremiações carnavalescas
inscritas na categoria de escola de samba, apenas umas cinco ou seis têm
vida própria e podem sair à rua sem o auxilio financeiro
da Secretaria de Turismo e Fomento da Prefeitura.
As escolas de samba do 3º grupo vivem de subvenção
e em função da subvenção. Passam o ano inteiro
se fingindo de mortas, não armam uma roda de samba, um pagode,
nem um simples rela - buxo. Alegam que não tem local prá
isso e não fazem nenhum esforço prá arrumar local.
Os dirigentes das escolas de terceiro grupo ficam chorando pelas esquinas
dizendo que a Prefeitura não dá terreno prá elas,
como se fosse possível dar terreno prá associações
de vinte ou trinta pessoas, numa cidade de 10 milhões de habitantes.
Choram os dirigentes das escolas de terceiro grupo e é só
o que fazem. Sem nenhuma cerimônia, se apresentam como baluartes
do samba, que sacrificam suas vidas particulares defendendo o samba e
ficam nisso, até que se aproxima o carnaval. Aí, então,
eles se apresentam nos meios dos bambas do samba e encomendam um enredo
prá um carnavalesco, um samba prá um compositor, sempre
gente desvinculada da escola. E com isso vão pro bairro, juntar
gente humilde que queira ter a glória de desfilar na "passarela
de asfalto da avenida iluminada". Algumas chegam ao cumulo de contratar
batuqueiros em outras escolas e até pedem enxerto de alas inteiras
de outras escolas do 1º grupo. E as que conseguem isso são
as que querem subir. As outras, sem nenhum respeito pelo público,
sem nenhum respeito pelo samba que dizem defender, passam pela avenida
se arrastando, como se fossem uma fila do INPS em movimento.
O terceiro grupo de escolas de samba não deveria ser subvencionado,
como não é o quarto grupo. E nem o terceiro e nem o quarto
grupo deveriam desfilar no centro da cidade. O concurso deles deveria
ser nos bairros e só o vencedor, no ano seguinte, é que
teria o direito de vir desfilar na avenida do centro. Essa medida iria
liquidar com as escolas fajutas, que a cada ano saem piores. Os donos
dessas escolas, ou perdiam o pesqueiro, ou iam Ter que organizar samba.
O paternalismo tacanho da Secretaria de Turismo e Fomento, que o próprio
secretario confunde com democracia, em vez de incrementar o samba, a arte
popular, as manifestações expontâneas, está
incrementando o comodismo. O paternalismo de alguns sambistas e o interesse
de outros nas escolas do terceiro grupo está resultando numa tremenda
falta de criatividade. Deu muita pena assistir ao desfile das escolas
de terceiro grupo. Apenas a Imperador do Ipiranga deu espetáculo.
Mas essa escola de samba está no terceiro grupo porque a Comissão
Julgadora do ano passado simplesmente não lhe deu nota. Essa escola
abriu o desfile e os elitistas do júri ficaram olhando as estrelas.
Depois da Imperador do Ipiranga só uma ou duas escolas vieram bem.
Entre as que vieram bem estava a Renascença da Lapa, mas essa escola
vinha com o Mililique, mestre-sala do Paulistano da Glória; Babita,
porta-bandeira do Lavapés; Borba, puxador de samba da Pérola
Negra; Silvio Modesto, da Império do Cambuci, e o seu enredo é
do Dudu do Carmo, urutu-cruzeiro da Mocidade Alegre. Se essa escola sobe,
acaba. Não vai ter elementos pra desfilar. Outra coisa que revela
vem o tacanho paternalismo da secretaria é que, no ano passado,
várias escolas de samba da categoria de pleiteantes deveriam se
apresentar bem, para serem guindadas ao terceiro grupo. Várias
se apresentaram sem gente, sem cumprir o regulamento e algumas nem se
apresentaram. Mas em vez de serem desclassificadas, como manda o regulamento,
foram subvencionadas e promovidas. E mais um ano não acrescentaram
nada ao desfile. Teve o Caso da Vila Carolina, que não saiu o ano
passado, porque o dinheiro da subvenção havia sumido e eles
não tinham fantasias, mas esse ano eles, novamente subvencionados,
estavam na avenida.
As escolas de samba não deveriam receber subvenção.
Deveriam receber dinheiro por serviços prestados e depois do serviço
prestado. Não antes. Mas isso a Prefeitura não vai fazer
nunca. A Prefeitura não está interessada em preservar as
manifestações espontâneas do povo brasileiro. A secretaria
só organiza desfiles de escolas de samba porque é obrigada
por lei. E, pra cumprir a lei, ela dá dinheiro às escolas
de samba e, se elas vêm se arrastando, caindo pelas tabelas, não
interessa. O que conta pra Prefeitura é que elas venham, mesmo
sem cantarem seus sambas-enredo, como aconteceu no terceiro grupo.
by: Plínio Marcos
(21/02/1977)
   
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