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Mulher gamada é fogo.
Quando se vidra e se amarra num homem, faz das tripas coração para defender
seus interesses. Uma mulher apaixonada se transforma dos pés à cabeça. Se é
classuda, apronta um salseiro sem vacilar; se é acanhada, faz escândalo sem
cerimônia. Não, não tem essa de ficar enrustida e se fechar em copas por questão
de categoria. Mulher que deixa o amor no barato não está toda na parada. Pode
estar por solidão, simpatia, conveniência e os cambaus, mas não por gama. É
isso aí. Não tem erro.
Taí a história da Dilma Fuleira e da Celeste Bicuda pra ninguém
me desmentir. É verdade que o perereco se deu nas quebradas do mundaréu, onde
o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Mas se acontecesse nos salões
da mais fina sociedade, não me causava espanto. Mulher é mulher em qualquer
lugar. Mestre Zagaia, velho cabo de esquadra que navegou sem bandeira por águas
barrentas e que embrulhou a solidão em muito lençol encardido, escancarou nas
Tabuadas das Candongas uma valorosa dica: "Depois dos panos arreados, o espetáculo
é sempre o mesmo". E se Mestre Zagaia falou, tá falado. Mas deixa isso de lado.
O que quero contar é a história de Dilma Fuleira e da Celeste Bicuda,
duas flores da Barra do Catimbó. Bom, elas nasceram lesadas da sorte e só pegaram
a pior; bagulho catado no chão da feira nunca fez bem à beleza de ninguém...
Uma era gordona e alta; a outra, baixinha e minguada. Mas eram mulheres, embora,
à primeira vista, não parecessem.
O que pesa na balança é que elas se unharam e se dentaram por amor
ao Ariovaldo Piolho, um vagau de pouca presença física, mas de muita embaixada.
Ele lidava com seu rebanho com mil e um macetes. Servia-se das duas, tocando
na base do agrião: pegava a grana da Dilma, cumpria a obrigação e ia buscar
os pixulés da Celeste, sem deixar a moça em falta.
Até que bateu sujeira: o doutor delerusca resolveu acabar com o
pesqueiro das piranhas. A Dilma Fuleira e a Celeste Bicuda escaparam da cana,
mas o faturamento caiu às pamparras e o Ariovaldo Piolho sentiu o aroma da perpétua.
Vagau escolado por muitos anos de janela é sempre cem por cento profissional;
sem pagório, deixou as mulheres na saudade. O caldo engrossou.
A Fuleira achou que o Piolho não queria nada com ela porque estava
enredado pela Bicuda e procurou a rival. Sem conversa, a grandona deu uma tremenda
biaba na magrela - que encarou, mas não deu nem pra saída. Encardida, a Bicuda
não era de engolir nada enrolado; não gostou nem um pouco de apanhar da Fuleira
e ter de correr. E foi à forra.
A Celeste Bicuda levou o nome da Dilma Fuleira na macumba, pra
mãe de santo enterrar no cemitério. Feita a façanha, se botou a boquejar nos
botecos; garantia que a Dilma Fuleira ia murchar até morrer. Não faltou fuxiqueiro
pra ir rapidinho envenenar a Dilma. E ela, atolada no pântano até o gogó, acreditou
que a bananosa toda que curtia era devido à mandinga da Celeste. Picou-se de
raiva e jurou, pela luz que a iluminava, que ia pegar a inimiga; a cobriria
de pancada até desenterrar seu nome. E foi pra guerra.
A Dilma nem pediu licença pra entrar no barraco da Celeste. Na
força bruta, foi botando pra quebrar. De repente, a Celeste Bicuda deu uns gritos,
uns pulos pro alto e, quando desceu, era uma fera matusquela. Passou a mão numa
enxada e tocou o bumba-meu-boi no lombo da Dilma, que se viu obrigada a dar
pinote. Não contente, a Celeste partiu na captura e derrubou a enxadada o barraco
da Dilma, que, apavorada, foi se refugiar na casa do Ariovaldo.
A Celeste endoidou mais ainda de ver a rival junto do homem de
sua gama. O escarcéu cresceu. Sem se afobar, o Ariovaldo Piolho saiu de fininho
e chamou a polícia; a cana chegou e ferrou as duas. No distrito, a Celeste alegou
que não tinha nada com a briga; que foi o exu de sua crença que encarnou nela
pra acabar com a outra e tal e coisa e loisa. De zoeira, a Dilma entregou tudo
como era; disse pro doutor que a bronca era por causa do Piolho, que estava
na fita como testemunha. O delegado quis saber se ele tinha emprego; não tinha.
O Piolho entrou em pua.
As mulheres foram dispensadas. Mas continuam pelejando por amor.
Uma visita o vagau às quartas-feiras; a outra, aos domingos. E todas as duas
levam o santo dinheirinho de presente pro Ariovaldo Piolho, o bom amante.
Plínio Marcos
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