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MUITO ALÉM DO JARDIM

Em meu artigo anterior, relacionado com o tombamento dos jardins da praia de Santos, parece que não coloquei com a devida clareza a minha visão sobre o assunto. As considerações da vereadora Cassandra Maroni, publicadas em um jornal da cidade, me deram tal certeza. Em momento algum me referi a munícipes que entenderam ser necessário o tombamento dos canais ou dos jardins. Respeito a posição deles, como de resto, espero que respeitem a minha. Um pequeno conhecimento da dialética proposta por Politzer, entenderá esta minha postura.
Se meu entendimento aponta para o fato dos canais de Santos se constituírem em um esgoto a céu aberto, isso transcende a qualquer administrador público que esteja ocupando o cargo de Prefeito. Estão assim há várias décadas. Será que todos os ex-Prefeitos também são culpados? Entendo ser fácil assinar um documento em que se tombem os referidos canais. O difícil, é mantê-los, e tal responsabilidade é da Prefeitura, que para tal atividade não recebe qualquer ajuda do órgão que efetua tais tombamentos.
O mesmo acontecerá com os jardins da praia. Aprendi ao longo da vida, a respeitar a posição da maioria, e neste caso específico dos jardins, a maioria esmagadora dos santistas é contra tal tombamento. Se o Deputado Edmur Mesquita montou num porco, deveria ter refletido antes de fazê-lo, até porque, o Deputado sempre teve uma postura avançada, ligado a ideais da chamada esquerda, e para espanto meu, vejo hoje que suas novas alianças nada tem a ver com tais posturas. Mas apesar disso, respeito seu posicionamento, muito embora não o entenda.
O eixo central do meu artigo anterior, estava embasado na questão da autonomia técnica do município, que de tombamento em tombamento, vai sendo demolida por firulas políticas, contrárias aos reais interesses da cidade. A Prefeitura de Santos, hoje, aguarda que o Condephaat lhe proporcione a devida autorização para construir duas pontes que viabilizarão a melhor fluência do tráfego nos bairros do Marapé e Campo Grande. Aguarda também, a devida autorização para efetuar reparos emergênciais em outra ponte sobre um canal, que está necessitando de urgente manutenção. E aguarda tais autorizações há dois meses. Afinal de contas, o tombamento dos canais está ou não está ingerindo na autonomia técnica do município?
Em duas oportunidades, vivi a falta de autonomia política de Santos. Uma reconquistada através do trabalho realizado pelo ex-Deputado e ex-Prefeito de Santos, Antonio Feliciano, e outra, mais recente, produto das marchadeiras, que nos custou quase duas décadas de "prisão domiciliar", obrigando os santistas a vários prefeitos nomeados por um sistema que só atrasou os destinos políticos, sociais e econômicos da cidade. Esta última reconquista da autonomia, custou a todos nós um trabalho insano, de lutas contra interesses contrários aos da cidade. A vereadora Cassandra Maroni deve estar bem informada sobre os dois exemplos e por certo, esteve conosco nessas lutas pelo direito à liberdade, do qual jamais abri mão em toda a minha vida.
Longe de mim confundir tombamentos de bens de interesse cultural, com a degradação dos mesmos. Só não entendo porque o Condephaat arquivou o processo de tombamento do Teatro Guarani, tão logo o mesmo foi semidestruído por um incêndio. Agiu melhor o Condepasa, que efetuou o referido tombamento, preservando o maior palco brasileiro da luta abolicionista. E agora, com o decreto de desapropriação a ser assinado pelo Prefeito Beto Mansur, poderemos recuperar um espaço histórico da cidade, e colocá-lo novamente à disposição da sociedade.
Não entendo também, o fato das ruínas do Engenho dos Erasmos estar a trinta anos sob supervisão da USP, e nada ter sido feito em função de sua recuperação e entrega à visitação pública. Dias atrás, quando tivemos necessidade de efetuar algumas fotos do local, tivemos que solicitar autorização para entrar na área. E a autonomia municipal?
Para finalizar, tombar é fácil. Recuperar, reconstruir, devolver ao povo, é onde o bicho pega. Por tais razões, sou contra o tombamento de áreas públicas, sem que os interesses da sociedade e da administração pública municipal sejam consultados, já que dezesseis membros do Condephaat residem em São Paulo, cinco em Campinas e um em São José do Rio Preto, portanto, ninguém reside em nossa região. Agir dessa forma, é no mínimo uma atitude fascista.

by: Carlos Pinto
Jornalista
Secretário Municipal da Cultura
( 13/12/2001)
Webmaster: Bethynha

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