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Outro dia fui dar uma
aula (no curso "A arte de contar histórias") e me veio à lembrança
o meu amigo Alberto D´Aversa, figura ímpar do teatro brasileiro. É bem
verdade que ele era italiano. Porém (e sempre tem um porém), mais que
isso, era um cidadão do mundo.
Um gênio, um gozador, um sujeito que não fazia cerimônia para esculhambar
a burrice dos pretensos intelectuais. Aliás, gente desse tipo é o que
não faltava nos meios teatrais do Brasil. Mas o D´Aversa era um mestre.
Respeitadíssimo por grandes artistas italianos, como Marcelo Mastroiani
e Vitório Gassman.
Muito informado, jamais levava besteira a sério. Por isso mesmo, tinha
muitos inimigos, o que tornava difícil pra ele arrumar trabalho. Muita
gente ia na casa dele para consultá-lo, mas na hora de trabalhar... Era
meu amigo, amigo de quem também não levava a sério os pretensiosos, amigo
de gente sem dinheiro, que não tinha oportunidade de trabalho para oferecer
a ele.
Quem às vezes lhe dava trabalho era o magnífico ator Zelone, um incrível
improvisador que não precisava de diretor, mas armava circunstâncias.
Uma vez ele me disse:
-Vou fazer uma peça com um casal bem simpático. Só que a cigana os enganou:
falou que são atores e não são. Mas querem produzir uma peça comigo e
vou ganhar muito dinheiro. Daí, chamei o D´Aversa pra dirigir. Duvido
que mesmo um gênio possa conseguir alguma coisa com a dupla, mas já falei
com o Alberto: não esquenta, cuida só para que os dois não dêem trombada
em cena, ganha seu dinheiro e pronto.
E o Alberto D´Aversa ia levando. Um dia, pintou uma chance de dirigir
um filme de um livro do grande Jorge Amado, Seara Vermelha. Foi um sucesso.
Sucesso artístico. No final, o galã cuspia na platéia. Outro mestre, Roberto
Freire, o Bigode, escreveu na "Última Hora" que ali começava o cinema
novo no Brasil. Naturalmente, todos os gênios das curriolas ignoraram.
Sacanagem! Depois de um trabalho desses, o D´Aversa continuou sem trabalho,
sempre duro. Socorrido de vez em quando pelo amigo Zelone.
E foi essa generosa figura que levou o D´Aversa pra TV Record. E foi praquela
gente que o D´Aversa contou uma história genial, a história da Família
Trapo. Todos gostaram. A emissora escalou um elenco de primeira: Zelone,
Ronald Golias, Jô Soares, Cidinha Campos. O D´Aversa convidou um grupo
de amigos pra ver a estréia na casa dele; eu estava lá, claro. Cada piada
que saía no programa, ele exclamava:
-Essa história é minha! Eu que contei pra eles. Me deram uma grana à toa
e nem puseram meu nome!
Assim foi até o fim do programa de estréia. Um estardalhaço de sucesso.
E o D´Aversa dando estrilo:
-Sucesso, sucesso, mas e eu? Eu que dei a idéia. Cadê meu nome? Tou fora,
já me tiraram fora. Me roubaram o programa.
Todos nós ficamos calados, tristes. Aí o genial D´Aversa saiu com essa:
-Que se danem essas faixas de culo de carabineiro.
Estranhamos. Tinham roubado uma idéia maravilhosa dele, que faria um sucesso
estrondoso com toda certeza e ele deixava andar?
-Eu também roubei essa história, roubei da Itália.
Esse era o Alberto D´Aversa.
Plínio Marcos
20/6/1999
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