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A CELULA PRINCIPAL

Em sua "Autobiografia
Precoce" o poeta Yeugeny Yevtuchenko, coloca em determinado momento
de sua narrativa uma frase lapidar, que por certo marcou muitos de seus
leitores: "Se em alguma coisa sou grato à guerra, é
o ter me ensinado o verdadeiro significado da palavra paz."
Referia-se o poeta aos percalços vividos pelo povo russo durante
os anos da segunda guerra mundial, os sofrimentos causados pela fome,
pelos rigores do inverno soviético e pela perda de entes queridos
nas mãos dos nazistas, notadamente na batalha de Stalingrado.
Entre esses percalços narra com nitidez a desintegração
familiar provocada pelo referido conflito, que teve marcante influência
na economia russa e, consequentemente, na sociedade como um todo em função
dos esforços determinados pelo governo, para fazer face às
necessidades de conter a invasão nazista em solo soviético.
Se tal desintegração familiar tinha por escopo os fatos
relacionados com a segunda guerra, a defesa da soberania e do território
russo, portanto, motivos fortes para sua ocorrência, observamos
hoje neste país a mesma falência familiar, ditada por outras
regras, sem a força determinante da ocorrida na Rússia de
então.
A nossa desintegração familiar ocorre em tempos de paz para
o país, e está calcada em erros crassos cometidos na condução
da nossa política econômica, que freou o desenvolvimento
e nos tornou reféns do capital alienígena, comandado pelo
FMI e por meia dúzia de especuladores internacionais, associados
a banqueiros pouco escrupulosos, donos do capital vagabundo.
Com tal freio no desenvolvimento bloquearam o crescimento da indústria
nacional, liquidaram com o investimento na agropecuária, e entre
outras sandices, criaram os maiores índices de desemprego jamais
vistos no Brasil. Só, São Paulo, possui hoje um contigente
superior a três milhões de desempregados de nossa população
economicamente ativa. Como um todo, o país tem hoje um segmento
de mais de quarenta milhões de brasileiros, vivendo na linha de
miséria, com uma renda de pouco mais de dois reais/dia.
Que futuro se espera de um país em tais condições?
Se na Rússia da segunda guerra, a desintegração familiar
se efetuou em função das condições e características
inerentes ao referido conflito, aqui, no Brasil de hoje, essa desintegração
se consuma a partir do momento em que, nossos filhos, aliciados pelo crime
organizado, para o qual as autoridades não tem autoridade de coibir,
se tornam vítimas desse cancro em que se transformou o tráfico
de drogas e de armas. Se efetua a partir do momento em que nossos filhos,
por falta de opções de mercado de trabalho, se afastam para
outras cidades, outros estados e outros países, em busca de oportunidades
e de uma carreira profissional que lhes é negada em solo pátrio.
Se a família se constitui na célula principal de uma sociedade,
e está sendo desintegrada a cada dia que passa, que se pode esperar
de uma nação, cujo governo, através de procedimentos
e políticas incorretas, nos conduz a todos para o atoleiro?
Torna-se necessário refletir sobre este momento da vida nacional.
O Brasil precisa mudar de rota, e ter um governo transparente, que pratique
atos que se transformem em resultados positivos para seu povo. Um povo
que apenas quer ter seus direitos respeitados, seu emprego de volta, um
ensino de qualidade, acesso aos bens culturais e, principalmente, seus
filhos de volta ao lar.
O momento se aproxima. A melhor revolução é a que
se faz através do voto consciente, desapegado dos brindes eleitorais
e das promessas vãs de guloseimas. Não podemos ser imediatistas,
e devemos ter sempre na mente, que toda facilidade nos trará, por
certo, um monte de dificuldades. É só olhar para o nosso
presente, para comprovar o que acima reproduzi.
Carlos Pinto
Jornalista
(14/08/02)
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